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"Sou Libriano, porém minha balança nunca
foi de precisão.
Sempre desregulada, pendendo pra algum lado,
e sempre o lado errado. Acho que por isso me
tornei um completo cretino. Mineiro até as entranhas,
insano dos pés à cabeça, encoleirado por opção e apaixonado pelas coisas
toscas e loucas da vida..."

 
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Tem aquele ditado: “pior cego é aquele que não quer ver!”
Acho esse ditado furado, pois para mim, o pior cego é aquele que não vê mesmo. Por exemplo, um amigo meu morreu há alguns anos, e como nossas famílias eram conhecidas, eu, minha vó e duas tias fomos ao velório.
Chegando lá, notamos que havia mais um defunto, além do meu amigo.
A indecisão de qual era se dissipou quando minha vó começou a entrar na primeira sala. Esquecendo que ela parece ser o Mr. Magôo, fomos seguindo-a como um bando de vacas.
Ela estava sem óculos, mas devido à gravidade da situação e da perda do nosso amigo nem notamos o fato.
Chega a fila dos cumprimentos, e minha vozinha aperta a mão da família, posicionada ao lado do caixão.
Estamos em fila, era um velório concorrido e estava apinhado de gente.
Eu imagino que meu amigo apesar da pouca idade, era muito querido pela comunidade mais velha, pois tinha muita gente de mais idade naquele lugar. Pensei então nos meus outros amigos sem consideração, não vi nenhum lá.
Minha “azuretada” vozinha já está a contemplar o morto, e fala para a família suspirando: “é uma pena, ele era tão jovem...”
Fico imaginando o que eu vou falar, sou péssimo nessas horas e palavras não cabem nesses momentos. Quando chega a minha vez de dar o último adeus ao meu amigo fico sem palavras, não pela emoção, mas porque ele era simplesmente uma senhora de uns 70 anos!!!
Minha vozinha ainda está lá do lado do caixão rezando pela alma do “jovem que se foi...”  e eu, péssimo como sou nessas situações, sinto que meus lábios travam uma luta; eu quero que eles fiquem onde estão, mas eles teimam em levantar exprimindo uma risada que eu quero parar. Seguro e reteso meus lábios, vejo que não vai dar, tento desesperadamente não rir ali, mas minha tia que esta atrás de mim olha com a mesma cara de riso contido. Não agüentamos e caímos na gargalhada em pleno velório para espanto dos presentes.
Agarramos o Mr. Magôo, ops, minha cegueta vozinha e saímos gargalhando a cada passada. Vamos para o velório certo e eu não me atrevo a olhar para nenhum dos meus parentes, pois sei que se os olhares se encontrarem vai começar tudo novamente. 
Bom, mas tem gente que não enxerga por falta de óculos mesmo, como minha pobre vozinha, mas tem coisa pior.
Certa vez estava na praia com um grupo de primos e amigos, e uma das garotas da nossa turma arrumou um carioca e começou um estranho embate com a língua dele... em determinado momento, eu pensei que eles iriam engolir um ao outro.
Estamos todos sentados numa vasta mesa nas areias da praia tomando cerveja, e o recém casal mineiro-carioca acaba de dar um tempo no combate de língua. Quando a garota começa a falar todos calam, ninguém tem coragem de contar que posicionado nojentamente na bochecha dela está um melecão verde!
Eu olho espantado e sei porque aquilo está ali... acho que esfregaram tanto a cara um no outro, que em uma das esfregadas, o nariz do carioca deixou aquele lindo presente na cara da minha amiga.
Estranho como ninguém fala nada nessas situações... acho que todos quiseram poupar o carioca de um vexame, e ninguém quis apontar a melecona gosmenta e esverdeada na cara da coitada.
O silencio mortal é cortado por uma única frase: “ei, tem uma coisa na sua cara... (sim,  claro que falei! Eu tava nem aí para a vergonha do carioca, eu tava era rindo demais!) ela me olha estranhamente e passa a mão na bochecha esquerda e eu falo: “não no outro lado”.
Ela faz o gesto de limpeza novamente e o cotocão se desprende do rosto, passando para os dedos dela, e ela olha para o cotocão melado e gosmento... Olha para o carioca catarrento, enquanto todos olham para ela. Eu olho, mas quase não vejo, pois estou com as costelas doendo de rir. Aquilo era bom demais pra ser verdade, e não é todo dia que se pode apontar uma melecona na cara de uma paty!
Ela limpa com guardanapos quase vomitando, e a cara do carioca tá toda vermelha, mas e daí? As nossas também, afinal somos mineiros brancos e estamos no sol há dias.
Na falta de um banheiro ela corre para o mar e lava as mãos, mas eu sei que aquela imagem da meleca grudada entre seus dedos não vai sair tão cedo da memória, e sei que por mais que ela esfregue os dedos na areia vai ter a lembrança do presente verde, da bolha de coriza enverdecida que saiu dos confins de um buraco nasal sujo de um carioca, se desprendendo dos pêlos do nariz.
Acho que minha adorada amiga se tornou Fluminense naquele dia, é tricolorrrrrrrr... vermelha do sol, branca do susto com o ocorrido e verde do melecão que o carioca lhe deu.
Bom, já que não tenho nada melhor para fazer fica a dica do dia: “Pense duas vezes antes de dar beijo de esquimó em cariocas.”



Postado por: Ricardo às 23h19

* * **  * Leia Conversa no Elevador *

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