
Clarimundo da Costa Gontijo, meu bisavô, vovô Mundim, duro na queda, faleceu com noventa e seis anos. Não chorei no seu velório, chorei quando ele estava doente. Vovô Mundim, firme e forte até o fim, poucos dias antes de morrer, teve uma ereção enquanto era agraciado com um banho de esponja por uma adorável e simpática enfermeira, para risos e espanto geral de quem estava presenciando aquela insólita cena. Enfim, um dia morreu Mundim. Na minha família há dois tipos de parentes em luto: os ricos e os pobres. Minhas tias , tias avós e toda espécie de perua rica com seus trajes impecáveis, óculos escuros , limpando com um lencinho de seda, lágrimas inexistentes no canto dos olhos, enquanto calculam matematicamente o valor da herança. Já os mais pobres, agem de uma forma diferenciada; normalmente gritando e se jogando em cima do caixão. Lembro de uma tia que berrava: “ Mundimmmmmmm, porque?????? Eu quero ir com vocêêêêêê!!!!!!” ... e lá vai berreiro. Minha família é enorme e totalmente pão dura. Acho que fazem concurso pra ver quem manda a coroa menor. Tinha uma lá que sinceramente parecia vir de uma loja de miniaturas. Mais parecia uma guirlanda natalina que uma coroa fúnebre. Como os velórios de minha singela família são em casa mesmo, sempre tem os comes e bebes, enquanto minhas tias com tendências para carpideiras choram o morto. A maioria está se enchendo de comida na cozinha, e às vezes a própria esposa do falecido não tem condições de velar o amado por estar envolta em fornadas e mais fornadas de pão de queijo. Entre todas essas peculiaridades, invariavelmente acontece alguma cena impossível de imaginar que se deu no velório de vovô. Minha amada vuela teve a fantástica sorte de batizar uma doce criancinha há uns 40 anos atrás. O que ela não sabia era que essa criança se transformaria num psicótico raivoso, conhecido por toda a cidade, e portador de uma tesoura que metia grande medo nas pessoas. Simplesmente ele era louco e corria freneticamente atrás de qualquer um que o desagradasse com a enorme tesoura em punho! A velação de Clarimundo da Costa Gontijo corria normalmente, dentro da normalidade possível à minha família, quando chega o louco da tesoura. Tensão total na sala! Atrás dos óculos fundo de garrafa podia se ver os olhos insanos percorrendo cada presente que tremia como vara verde. Ele cumprimentou minha vuela beijando sua mão e pedindo a benção, e foi ver o morto. O que ninguém esperava era o impossível, mas como eu disse, não existe o impossível na minha família. Ele sacou de duas margaridas que estavam no caixão e adornou as narinas do agora floral vovô Mundim. Ninguém esboçou qualquer reação, ninguém iria contra o portador louco de uma tesoura afiada, e acho que naquela hora algumas tias minhas mudaram de opinião quanto a querer ir junto com o falecido. Sem que nada pudesse ser feito, foram quinze longos minutos onde meu avô ficou enfeitado como um carro alegórico. Quinze minutos das mais diversas reações, do riso à indignação. O louco podia ser louco, mas continuava sendo mineiro, então foi seduzido inevitavelmente pelo aroma vindo da cozinha, onde mais uma fornada de pão de queijo saía. Enquanto ele se dirigia pelo corredor, as flores eram retiradas do meu avô. E lá se foi Mundim: “que descanse em paz!”
Postado por:
Ricardo
às
21h12
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