
Quando criança eu imaginava se a Xuxa ia ao banheiro. Hoje imagino que nos piores momentos de encalhamento ela deve cantar ilariê ilariê ô ô ô sentada no trono, porque afinal ela é a Rainha. Enfim, ilariê ilariê ô ô ô deveria ser a canção das pessoas com intestino preso. A fonética dessa música é perfeita para os momentos de maior agonia, onde não basta só a força, você tem que lutar. São poucas as pessoas que fazem o número dois ou flatulam perto dos outros. Fico pensando: será que isso é tão vergonhoso assim? Afinal, é uma coisa tão primordial, todo mundo faz, porque temos tanta vergonha? Pensando bem, nem todos têm tanta vergonha, mas eu realmente tenho. E mesmo sabendo que certas coisas tem que sair, não quero que ninguém as presencie, pois não é nada charmoso estar do lado de alguém enquanto se risca fósforos. Pode não ser agradável que alguém esteja junto à você neste tão íntimo momento, mas às vezes escapa, literalmente... Estava eu gripado, deitado no sofá vendo tv e me perguntando se sobreviveria àquela terrível gripe, olhos lacrimejantes e corisa, hipocondríaco, neurótico e paranóico. Filosofava se podia eu estar com uma gripe aviária, uma pneumonia, ou algo que me matasse. No auge do desespero e dor de garganta resolvi seguir um conselho de mamãe(nunca mais em minha vida sigo os conselhos dela); fiz um litro de gemada e tomei achando que seria a cura. Meia hora depois começo a sentir algo estranho no meu corpo, mais especificamente no ventre. Tive a nítida sensação que era o oitavo passageiro dentro de mim, conforme minha barriga mexia de uma forma incontrolável. A sala toda trancada eu debaixo da coberta: o que fazer, o que fazer? Eu poderia ir ao banheiro e me aliviar lá mesmo, mas o banheiro tava tão longe, meu corpo tão dolorido, não tinha ninguém na sala. Então... É isso mesmo que vocês estão pensando: foi ali mesmo! Tive a sensação que Osama vendo, aliás sentindo aquilo, certamente iria querer usar meu potencial de arma de destruição em massa. Agora, o que eu não esperava era que a empregada fosse entrar na sala justo naquele fatídico momento. Se estivesse eu vendo um filme tipo Rambo, seria fácil pôr a culpa da sonora flatulência nos inúmeros tiros que se dá nesses enlatados americanos. Porém, o que eu iria fazer com o cheiro? Pensei em respirar fundo pra acabar mais rápido, mas isso seria mortal. Pensei em me esconder debaixo da coberta e nunca mais sair de lá, mas fiquei com medo de arriscar minha vida dessa forma. Pior, eu nem tinha um cachorro pra culpar, daria tudo pra estar vendo um filme do Rambo e apontar pro Totó com ar de reprovação dizendo em alto e bom som: “Totó que vergonha, aposto que tá com a pata amarela” mas não deu, ficamos eu e a coitada da empregada em meio aquela nuvem de gás sarim, minhas mãos ficando amarelas e minha cara roxa de vergonha...
Postado por:
Ricardo
às
22h36
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* Leia Conversa no Elevador *
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