
Loucura Loucura Loucura
Lembra do inesquecível homem do saco? Era um ser quase mitológico do imaginário infantil. Criança que foi criança certamente foi amedrontada por algum parente com a possibilidade de ser levada dentro do saco por essa tenebrosa figura. Bom, eu nunca tive um homem do saco, eu tinha a Seleni. A diferença crucial entre ela e o homem do saco era que a Seleni realmente existia, e além de existir ela era completamente louca, e pra piorar morava na casa ao lado. Lembro das doces palavras de vovó para comigo: “fica quieto seu capetinha, senão eu chamo a Seleni pra você!” Nem a visão de um garoto levado como eu, indo para o purgatório me horrorizava mais que a possibilidade da Seleni me pegar. Enfim, ela metia medo mesmo. Contudo, Seleni nunca me pegou; eu disse que nunca me pegou, porém um dia... Vovó tomava banho com a porta só encostada. Hipocondríaca e paranóica, tinha medo de ter um ataque e não ser socorrida. Lavado seus cabelos brancos, ela sentiu uma dor terrível na perna. Podia ser artrite, podia ser reumatismo, mas não... na minha família nunca é coisa óbvia. Por mais improvável que pareça era a Seleni! Ela entrou no banheiro e estava agachada mordendo a perna de minha pobre vovozinha, como um pitbull enfurecido. Ela mordia enquanto vovó tentava vestir um roupão. Cheia de pudores, ela podia ficar sem perna, mas nunca pediria socorro nua. Quando conseguiu se vestir, começou a gritar por ajuda. Ela e a louca se digladiavam no banheiro. Era tapa, sopapo, ponta pé e puxão de cabelo pra todo lado! Acho que neste momento, minha avó se arrependeu de falar que a Seleni pegava. Seus gritos de socorro resultaram em duas coisas: primeiro, o marmanjo do meu tio se trancando no quarto tremendo de medo, e segundo, meu valente avô quase cego e caduco trazendo uma corda pra amarrar a insana. Depois de uma luta entre meus avós, a corda e a louca, a policia chegou. Depararam-se com a visão lastimável de duas mulheres amarradas. Na confusão, meu avô sem querer amarrou minha avó e a aloprada Seleni. Os policiais ao verem minha abatida avozinha em trajes mínimos e com o cabelo desgrenhado, ofegante pela luta, algemaram as duas, pois estavam em dúvida de quem era a louca. Depois de muito explica daqui, explica dali e patati patatá, liberaram minha vuela. Essa história é uma das mais conhecidas na minha família. É passada de geração pra geração, já desgastada de tanto que foi contada, mas sempre rende boas risadas , não importa o quanto você já tenha ouvido.
Ricardo
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Ricardo
às
00h56
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